Português quer saber se tem um Velázquez
2007-11-18
Um dossier com análises técnicas de um esboço de pintura que se suspeita ser da autoria de Diego da Silva Velázquez (1599-1660) foi enviado para o Museu do Prado, em Madrid, onde estão especialistas do pintor espanhol, com o objectivo de apurar se a obra é autêntica.
  
 A pintura a óleo sobre tela, de pequenas dimensões (0,55 por 0,42 metros), que representa o rei Felipe IV de Espanha a cavalo, terá estado, sustenta o autor do dossier, Manuel Castro Nunes, "na génese da concepção e composição" do retrato equestre do mesmo rei para o Grande Salão do Palácio do Bom Retiro.
  
 Estudioso de arte antiga, Manuel Castro Nunes elaborou o processo de pesquisa histórica e investigação científica, quer do pintor quer da tela, adquirida há um ano num leilão em Lisboa, como pintura normal.
  
 No processo remetido ao Prado estão provas realizadas no Instituto Português de Conservação e Restauro, do Museu Nacional de Arte Antiga (análise estratigráfica e química da película cromática, preparação e suporte, espectrometria de fluorescência de raios X), tendo o Departamento de Conservação e Restauro da Universidade Nova feito a radiografia de exposição. O processo é complementado com análises fotográficas, incluindo exposição a raios ultravioletas, iluminações razantes e declinadas, feitas por Manuel José da Palma, um técnico conceituado.
  
 Os relatórios identificam tela artesanal, feita de cânhamo, técnica de execução "rasa" e, entre muitos outros pormenores herméticos ao cidadão comum, explicam a dimensão das pinceladas e descrevem a preparação, composta por ocre, ocre vermelho, carvão animal, branco de chumbo e cré que, segundo Manuel Castro Nunes, estão "de acordo com a identificação dos procedimentos elementares de Velázquez". Os testes revelaram que o bigode de Felipe IV foi colocado posteriormente "porque o rei tinha na altura 20 anos e não o usava ainda", sustenta o autor.
  
 De Madrid para a Holanda
  
 "Estou convicto de que se trata do esboço preparatório para o retrato que pintou em 1625 e que se considera desaparecido", revela, ao DN, Manuel Castro Nunes, representante de um particular que quer ficar anónimo. Em sua opinião foi executado "na fase inicial da instalação de Velázquez na corte de Filipe IV, tendo o pintor executado em 1635 a encomenda de novo retrato equestre destinado ao Bom Retiro, hoje exposto no Prado. O esboço comprova que, em 1625, já estava formulada a ideia de Velázquez, sendo possível que o retrato de 1635 tivesse sido pintado sobre a mesma tela de 1625. Se o esboço for de Velázquez prova que este teria pintado o rei antes de ir para Roma, em 1628, de onde trouxe novidades técnicas".
  
 No verso da tela vê-se uma etiqueta do Museu Municipal de Arnhem, Holanda, destruído durante a II Guerra Mundial, após o lançamento de 70 mil pára-quedistas nas redondezas. A última referência documental conhecida do esboço remonta a 1840, quando pertenceu à colecção do magnata D. Serafim de Huerta, de Madrid, que tinha várias obras do pintor, nomeadamente esboços.
  
 O pedido da opinião aos peritos do Museu do Prado tem objectivos comerciais. Manuel Castro Nunes confessa que o dono do quadro gostaria, caso se trate de um Velázquez, que a pintura fosse "acolhida no Prado ou por uma instituição pública portuguesa que lhe conferisse dignidade mediante compensação ao legítimo proprietário. Não queremos iniciar qualquer disputa, mas alertar os especialistas. Estamos a dar conhecimento público, independentemente de ser um Velázquez ou não. Se for cópia, foi copiado do quadro de 1625 que é igual ao de 1635. Como documento é de grande importância. E se não for Velázquez queremos saber o que é". A tela tem autorização do Instituto Português de Museus para sair do País, com destino a Madrid.
  
 Fonte: DN (Leonor Figueiredo)
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