William M. V. Kingland era uma figura excêntrica e misteriosa do meio artístico e da alta sociedade nova-iorquina. Kingsland, que evitava falar sobre os anos da juventude, havia mudado o seu nome de baptismo (Melvyn Kohn) com o objectivo de ser mais bem aceite no círculo restrito das elites. Negociante, coleccionador, bibliófilo e especialista em genealogia, morreu sem deixar testamento nem herdeiros. Possuía parentes, mas não manteve contacto com eles durante anos. Quando, após a sua morte, as autoridades franquearam as portas do seu apartamento, encontraram as paredes forradas com um impressionante conjunto de cerca de 300 obras de arte assinadas por nomes como Corot, Picasso, Giacometti, Giorgio Morandi e Kurt Schwitters. As peças mais valiosas são um busto modelado por Giacometti (670 mil euros) e uma tela de Picasso (400 mil euros). Tomada a decisão de a leiloar, a colecção foi retirada do apartamento. As peripécias começaram logo aí, quando dois funcionários da empresa de mudanças foram apanhados a roubar dois originais de Picasso que, curiosamente, já haviam desaparecido de uma galeria de Nova Iorque em 1967… Com as investigações sobre a proveniência das obras levadas a cabo pela Christie’s, pelo menos 20 peças revelaram constar dos registos da Polícia, tendo sido alvo de roubos nas décadas de 60 e 70. Contactada pela leiloeira, a equipa do FBI, que ainda ignora se as obras foram ou não adquiridas por Kingsland de boa fé, procura devolvê-las aos seus legítimos proprietários. Para acelerar o processo, disponibilizou online as suas imagens. O roubo de arte gera, segundo o FBI, prejuízos anuais na ordem dos quatros biliões de euros.
Fonte: Jornal “Sol”, 15 de Agosto de 2008, pág. 36 / DIGITRACE |